Investimento concreto
Até pouco tempo atrás, comprar um imóvel e alugá-lo era um dos piores destinos que um investidor podia dar a seu dinheiro. Com pouquíssimas exceções, o retorno mensal de uma casa ou um apartamento alugado na última década ficou em torno de 0,6%, menos que a modesta rentabilidade da caderneta de poupança. Os ganhos com o aluguel de escritórios foram um pouco maiores, mas nada de entusiasmar. Além disso, o valor dos imóveis pouco mudou, limitando o ganho patrimonial. Recentemente, esse cenário começou a mudar. O valor dos aluguéis — em especial os comerciais de alto padrão — está subindo em muitas cidades, o que cria oportunidades de investimento. Em São Paulo, o aumento do preço da locação de escritórios nos melhores endereços foi de 47% nos últimos dois anos, segundo um levantamento da consultoria imobiliária Cushman & Wakefield. No Rio de Janeiro, a alta foi ainda maior, de 70%. No mercado residencial paulistano, os aluguéis de apartamentos subiram de 20% a 40%, de acordo com uma pesquisa do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo. “O setor vive sua melhor fase em mais de uma década”, diz Fabio Rossi, diretor do braço imobiliário da casa de leilões Sotheby’s no Brasil. “Ter um inquilino está voltando a ser um bom negócio.”
O principal alvo de atenção de investidores tem sido o mercado de salas e escritórios de alto padrão, no qual os aluguéis são proporcionalmente mais elevados. Na média, o proprietário de um escritório em São Paulo ou no Rio obtém uma renda mensal de mais de 1% do valor do imóvel. O ganho anualizado — de 13% — pode parecer pouco, mas é superior ao de um fundo DI (que rende, em média, 9% ao ano) e está amarrado a contratos de vários anos. Além disso, o bom momento do mercado imobiliário abre espaço para que os proprietários ganhem também com a valorização dos bens. E a expectativa para o futuro é positiva. Segundo a consultoria imobiliária Jones Lang LaSalle, os valores dos aluguéis comerciais de imóveis de alto padrão em São Paulo e no Rio continuarão em alta nos próximos dois anos. Isso porque o crescimento econômico deve manter elevada a demanda por escritórios e as taxas de salas vagas estão nos níveis mais baixos da década — 11% em São Paulo e 4% no Rio. “Nem o aumento de 10% do número de escritórios nessas cidades, previsto para ocorrer até 2011, deve mudar esse cenário, pois o crescimento da demanda será maior”, diz Lilian Feng, gerente de pesquisas da Jones Lang LaSalle. As incorporadoras que atuam nesse segmento não acreditam na repetição do fenômeno de superoferta, que em 2002 derrubou o preço dos aluguéis. “Há muitas empresas chegando ao país e outras abrindo filiais. Quem busca novas instalações está pensando no longo prazo e não fica à mercê das oscilações do cenário internacional”, diz Dani Ajbeszyc, diretor de relações com investidores da Cyrela Commercial Properties.
É por isso que muitas consultorias apontam como alvo ideal para investidores os imóveis cujos andares têm mais de 500 metros quadrados e que contam com infra-estrutura de primeira linha, como ar-condicionado central e elevadores inteligentes. “É para onde vão as empresas de grande porte, que buscam boa localização e estrutura para equipamentos eletrônicos e de informática, além de boa aparência e conveniências, como garagem ampla”, diz Milena Morales, responsável por pesquisas na América do Sul e na América Central da consultoria Cushman. Em São Paulo, escritórios de alto padrão estão localizados, principalmente, na avenida Brigadeiro Faria Lima e em bairros próximos, como Itaim e Vila Olímpia, com algumas opções nas avenidas Luiz Carlos Berrini e Paulista. No Rio, os destaques são as salas localizadas em prédios na zona sul, na orla, no centro e na Barra da Tijuca. Mas vale a pena ficar de olho também nas oportunidades que começam a surgir em outras cidades. “A expansão econômica tem levado investidores a estudar mercados como Porto Alegre, Curitiba, Recife e Manaus. Outro destaque é Natal, que pode ser favorecida pelo projeto de construção de um novo aeroporto na região metropolitana”, diz Milena Morales, da Cushman. Também há um estado de alerta nas imobiliárias de cidades como Santos e Guarujá, no litoral de São Paulo, e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, onde a expectativa é que a exploração das novas reservas de petróleo descobertas pela Petrobras atraia novas empresas. Revista Exame, 19/09/08 |